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Alexandre Marinho Pimenta
Graduando em Pedagogia pela
Faculdade de Educação da UnB. Autor do artigo Contra uma formação para uma educação em Direitos Humanos,
publicado em Germinal: Marxismo e Educação em Debate v. 4, n. 1 (2012).
E-mail: alexmpsin@hotmail.com
RESUMO:
Vivenciamos um processo de ampliação do sistema educacional nas últimas
décadas nas formações sociais capitalistas, incluindo o Brasil. O direito à
educação é apontado como forma essencial de superação das desigualdades
sociais e das estruturas de dominação. Diante desse cenário à primeira vista
simples, buscaremos identificar as contradições do processo de democratização
do sistema educacional capitalista, ao mesmo tempo em que retificamos sua
função reprodutivista da estrutura social dominante, em grande parte e cada
vez mais fundamentada pela ideologia jurídica. Defende-se a visão de que a
autonomia relativa do sistema educacional capitalista impõe limitações
estruturações às transformações progressistas deste, que podem, inclusive,
paradoxalmente reforçar a legitimidade das relações de produção capitalista e
do Estado, que organiza e dirige sua reprodução.
Palavras-chave: direito
à educação, crítica da ideologia, modo de produção capitalista.
No momento em que questionamos
seriamente o consenso liberal existente, somos acusados de abandonar a
objetividade científica em troca de posições ideológicas ultrapassadas. Esse
é o ponto “leninista” do qual não se pode nem se deve abrir mão: hoje, a
verdadeira liberdade de pensamento significa liberdade para questionar o
consenso democrático-liberal “pós-ideológico” dominante – ou não significa
nada.
Zizek (Às portas de revolução.
A escolha de Lenin)
A ideologia jurídica burguesa,
que proclama a “liberdade” e a “igualdade” de todos os indivíduos, tem como
conteúdo real o antagonismo das classes, o monopólio dos meios de produção e
a exploração dos trabalhadores “livres”. O que sabemos graças a Marx é que a
ideologia jurídica burguesa não é a representação exata das realidades que
encobrem, mas sim que ao mesmo tempo está indissociavelmente ligada a elas. A
sórdida realidade da exploração não pode existir sem expressar-se em belas
representações mistificadoras da ideologia jurídica burguesa.
Baudelot e Establet (L'école
capitaliste en France)
Introdução
Paradoxos são contradições com
características específicas. Menos explícito que um antagonismo, um paradoxo
se esquiva do senso comum e da lógica formal, por possuir uma razão que
contraria o primeiro olhar, quase sempre ingênuo. Um paradoxo é um fenômeno
da realidade que surge de maneira improvável, pois sua origem se desdobra de
maneira inesperada e alcança uma finalidade contraditória se tomada apenas
por si só. Segundo Japiassú e Marcondes (2001, p. 207), paradoxo é um "pensamento
ou argumento que, apesar de aparentemente correto, apresenta uma conclusão ou
consequência contraditória, ou em oposição a determinadas verdades
aceitas".
Como tentaremos mostrar neste
artigo, através de um levantamento bibliográfico e um debate teórico crítico,
a realidade político-educacional na sociedade capitalista de hoje é penetrada
por diversos paradoxos, de complexos desdobramentos. A conjuntura nacional
será tomada eventualmente para força de ilustração. A razão dessas
contradições se portarem como paradoxos está na necessidade da ideologia
constantemente se renovar, já que sua função é realizar uma dissimulação
sutil do mundo social, fundar simulacros para tentar ocultar o profundo
antagonismo vivido pelas sociedades de classe.
Essa constituição e renovação
geral da ideologia sobre a realidade político-educacional se sustenta
profundamente através da ideologia e das práticas ideológicas jurídicas.
Estas, amparadas na figura de um Estado democrático de direito, possui a
capacidade de neutralizar formalmente, no nível do discurso, as contradições
sociais, e através de sua atuação gerar uma simulação de “justiça” no âmbito
da sociedade. Atualmente em nosso país, por exemplo, vemos isso claramente: a
conjuntura marcada pela recente saída do regime militar, e, no nível mundial,
a hegemonia pós-guerrafria dos organismos internacionais do mundo
capitalista, onde o Brasil se insere de maneira subordinada, reforçam os
efeitos da ideologia jurídica. A construção de aparatos legais e suas
aplicações no nível político, segundo as diretrizes da ideologia específica
dos direitos humanos , parecem hoje a solução definitiva para problemas há
muito insolúveis em nossa sociedade. O caminho foi achado, e “não há outra
alternativa”.
Segundo Zizek, essa ideologia
do capitalismo contemporâneo é definida pela crença profunda de que vivemos
uma espécie de “fim da história” (Fukuyama), pois:
segundo a ideologia oficial, estamos finalmente
abandonando as paixões políticas “imaturas” (o regime do “político” – luta de
classes e outros antagonismos divisores “superados”) para entrar no universo
pragmático pós-ideológico “maduro” de administração racional e consensos
negociados (ZIZEK, 2005, p. 23).
A ideologia jurídica em tal
conjuntura dá corpo às ilusões “pós-ideológicas”.
É verdade que nessas linhas
gerais do fenômeno político educacional atual, há muitos aspectos já
presentes e até mesmo contínuos na história do capitalismo. Que a ideologia,
o Direito e o sistema político democrático sejam elementos essenciais na
construção de consentimento da sociedade burguesa, não é nada surpreendente.
Porém o que nos parece problemático, e deve ser motivo de atenção, é o seu
entrelaçamento com a temática educacional. Esta vem tomando contornos
ideológicos de maneira a “seduzir” até mesmo movimentos e organizações
políticas que pretendem uma construção contra-hegemônica e aliada às classes
populares. Cada vez mais a impressão que se tem é que a educação a) apresenta-se
como solução mágica para problemas sociais estruturais tomados de maneira
reducionistas; b) é uma espécie de território neutro e de caráter técnico,
quer seja, atividade pedagógica exercida por instituições sobre indivíduos e
limitada à cultura e psicologia (ou no “capital humano”) destes; c) diz
respeito a um consenso profundo na sociedade (não é à toa, chamada de
“sociedade do conhecimento”), independentemente do posicionamento político.
Arrisca-se assim a reduzir essa convicção em uma proposição de formato já
conhecido: educação como valor universal – que de alguma forma se completa e
dialoga com o ideário eurocomunista de Coutinho (democracia, valor
universal).
A “luta pela educação” tem
assumido centralidade, ao menos no nível discursivo, tanto para os
conservadores explícitos com seu ímpeto civilista, quanto para os
progressistas e (supostos) revolucionários. Passemos por um breve panorama
desse fato na conjuntura brasileira.
Ouvimos, por exemplo, o
surgimento e crescimento de termos como “educacionismo”. É visível nos
últimos anos a proliferação de movimentos/ONGs sob a égide de “educação é
progresso”, ou “revolução pela educação”. Do gabinete do senador Cristovam
Buarque (PDT), um dos principais mentores do movimento, surgiu em 2007 o
Movimento Educacionista (brasileiro), que luta pela garantia dos direitos
humanos, onde o direito à educação igualitária e de qualidade se torna
central, e aposta nesse caminho para o desenvolvimento da nação e da
cidadania e diminuição das desigualdades sociais. Segundo seu mentor, o
movimento é inspirado e se vê como continuidade do movimento abolicionista.
Logo depois, em 2009, surge o Movimento Educacionista do Brasil – MEB,
organizado por dissidentes do ME brasileiro de caráter mais apartidário. De
maneira muito cômica (para não dizer trágica) esse “racha” imediatamente nos
faz lembrar os embates que o Partido Comunista presenciou na década de 60 em
diante em nosso país, sendo sintomática para demonstrar a mudança de
paradigma, de formato e ideário, dos movimentos que buscam transformação
nessa pretensa virada “pós-moderna” e “pós-ideológica” do capitalismo. As
bases materiais da sociedade e suas estruturas mais profundas são deixadas de
lado: o foco se torna as pequenas mudanças, pequenas reformas, que juntam constroem
numa rede um novo mundo possível.
A título de outro exemplo,
outros setores da “sociedade civil organizada” e dos “movimentos sociais”,
não assumidamente “educacionistas”, também seguem a proposta da UNESCO de
universalização com equidade do sistema educacional como caminho essencial
para a resolução dos “problemas do século” . Com o intuito de pressionar o
Estado a dar maior prioridade ao sistema nacional de educação, por exemplo,
elevando seu investimento (o famoso “10% do PIB para a educação” etc.), essa
articulação, entre poder público e sociedade civil, é visível desde 2010
através do Fórum Nacional de Educação e da CONAE, que em 2014 realizará uma
nova edição. Esses espaços se consolidam como um apêndice “extra-estatal” de
acompanhamento e aconselhamento de políticas públicas educacionais. Setores
dos movimentos populares e sindicais hegemonizados pelo governo federal
(UNE/UBES, federações cutistas como a CNTE), estão fortemente presentes na
construção desses espaços, e os colocam em sintonia com a maioria das
políticas governamentais, apesar de exporem eventualmente críticas rasas, mas
construtivas. E também, seguindo a leva do governo, que é formado por uma
aliança política heteróclita (para dizer pouco), encontramos também
participando desses espaços movimentos empresariais, como o Movimento Todos
pela Educação, liderado por Jorge Gerdau, financiado pelos maiores bancos
privados brasileiros e apoiado por ONGs e empresas com “preocupação social”,
como a Rede Globo de Televisão. A compreensão dos “movimentos de esquerda”
sobre a participação do empresariado desse escalão (autênticos representantes
do imperialismo em nosso país) é de que, como diz a própria Carta Aberta
(2011, carta que se limita a pedir que o Movimento Todos pela Educação explicite
a demanda dos 10%... para o próximo PNE, ainda hoje em tramitação) ao grupo
liderado do Gerdau: “Toda iniciativa interessada em colocar a agenda
educacional em evidência é louvável. [...] a mobilização empresarial – que
lidera o movimento “Todos pela Educação” – poderá ser uma importante aliada
para o Brasil romper com o baixo investimento em políticas públicas
educacionais.”. O antagonismo “profundo” que querem simular é de que um é a
favor da eficiência do Estado e o outro é acredita na ineficiência do Estado.
A despeito disso, todos buscam “educação”, e de certa forma podem se ajudar
mutuamente.
Também nesse sentido, vemos no
nível teórico e acadêmico estudos que tentam demonstrar que a função da
educação se modificou, deixando no passado seu papel reprodutor /conservador,
profundamente excludente, seus métodos de inculcamento e disciplinarização
explícitos, para abraçar propostas e práticas mais progressistas,
democráticas e inclusivas (PERRENOUD, 2001). Não havendo sentido, por isso,
condená-la como “controlada pelas classes dominantes”, mas sim um espaço
aberto de luta e avanço talvez mesmo o principal para uma mudança radical na
sociedade capitalista.
Mas até mesmo essa impressão de
centralidade da educação (escolar) para as transformações sociais na atualidade
é de certa forma enganosa. Se analisarmos mais de perto, a escola, e o
espectro ideológico a ela associado, são fundamentais à sociedade burguesa ,
desde seus princípios – e aprofundaremos mais depois nessa tese. E também a
reforma ou revolução da sociedade capitalista pela educação esteve largamente
presente no socialismo utópico e no reformismo, sendo por vezes seu
principal programa. O próprio MEB em seu sítio eletrônico cita Kropotikin,
anarquista e “libertário” russo do século XIX, como fundador do movimento
educacionista.
Mas não será nosso objetivo
aqui esmiuçar sobre o histórico desse “programa revolucionário”,
aparentemente tão novo, que, no entanto, remonta aos velhos ideais liberais
de esclarecimento como via de transformação social – em direção à
“realização” da Razão – e o Estado/Democracia/Direito como elementos
universais, ainda presentes só no papel mas que precisam se “realizar”. Assim
como não será objetivo diretamente tratar as especificidades das lutas
democráticas (táticas) e suas articulações com um projeto revolucionário –
que, como vimos brevemente, tudo que não vem sendo feito pela esquerda
majoritária.
Pretende-se aqui exclusivamente
esboçar uma crítica à educação na sociedade capitalista atual, mais
propriamente seu sistema educacional, focando as funções reprodutivistas que
este ainda exerce, além de relacionar o efeito da ideologia jurídica que
dissimula essas funções, hoje mascaradas pela vigência dos direitos humanos e
do Estado democrático de direito. Veremos, de maneira geral, como a limitação
estrutural da educação em nossa sociedade faz com que a suposta
democratização da educação através do direito e da ação estatal se encerram
em antinomias e paradoxos intransponíveis no status quo, desmistificando
assim a suporta via revolucionária pela educação.
Arma da crítica e da ciência: método e luta
Antes, algumas questões
preliminares sobre crítica e análise científica da realidade social. Para
Althusser (1976) a construção de uma problemática realmente científica só
pode surgir a partir de uma demarcação do campo em que se pesquisa. Isso que
dizer: operar teoricamente sobre uma questão na finalidade de separá-la,
tomar distância, do campo ideológico que emana de nossas práticas. Esse
trabalho, aparentemente vazio e improdutivo, e próprio da filosofia, é
elementar para qualquer ciência. A crítica, portanto, é uma tarefa que se
exerce sobre a realidade discursiva, mas que, não podemos negar, possui
consequências práticas inevitáveis, sejam estas desejáveis ou não.
Eis o ponto materialista que
gostaríamos de assumir, ponto possível desde a inauguração científica do
materialismo histórico. E nesse sentido, compreendemos a crítica por si só
como atividade estéril e enganosa, já que a realidade social se constrói
fundamentalmente pela materialidade e pelo primado da prática, e não pelo seu
reflexo (apesar de também ser atuante) na esfera discursiva. Afinal, as armas
da crítica que se pretendem consequentes não podem abandonar a crítica das
armas, como já bem advertia Marx desde sua juventude.
Criticar é reposicionar as
coisas, de uma maneira lógica e justa. Mas mais que isso: abrir caminhos,
tanto para a prática teórica, quanto para a prática política. Dentro da
sociedade de classes, a luta teórico-ideológica se soma às lutas de cunho
econômico e político servindo assim à constituição política de uma classe. O
próprio autor conceitua a filosofia como luta de classe na teoria. No caso da
atividade crítica, esta possui estreita relação com a construção de uma
contra-hegemônica das classes dominadas, que não possuem compromisso e
interesse objetivo com a perpetuação do status quo. Crítica, quando
revolucionário, radical, aponta para o novo, algo fora do alcance do possível
no presente embotado pela ideologia dominante (que hoje assume formas cada
vez mais cínicas e obscuras).
Notas sobre modo de produção,
Estado e sistema educacional capitalistas
Para se diferenciar da
concepção idealista de ciência, que até hoje tem seus rebentos, por mais
adornos que estes ganhem, seguimos Marx: não partimos dos homens, nem das
“associações” e representações destes, mas sim da base material que
possibilita a realidade social. O objeto do materialismo histórico não são os
grupos ou sociedades humanas, mas sim formações sociais concretas dependentes
de um modo de produção dominante .
E como “funcionam” tais
formações sociais? E especificamente as formações sociais capitalistas, onde
o modo de produção dominante provém das relações entre capital e trabalho
assalariado? A ideologia dominante, que da mesma forma que o idealismo,
também se fantasia de teorias críticas e radicais, ataca o marxismo por sua
veia “economicista”. Segundo esse discurso, que cresceu ainda mais após a
derrocada dos regimes socialistas do século XX e na ofensiva imperialista que
hoje vivemos, o marxismo reduz todos os fenômenos sociais como determinados
unilateralmente pelo econômico.
Mas essas deturpações da
ciência da história inaugurada por Marx nem arranham a verdade sobre sua
teoria. No seio do materialismo histórico, as formações sociais (articulações
de modos de produção com um dominante) são subdivididas em uma tópica:
infraestrutura (econômica) e superestrutura (político-jurídica, ideológico).
Os elementos econômicos são determinantes em última instância na história: e não
único determinante/dominante, não significando assim economicismo. Os
elementos superestruturais são dotados de uma autonomia relativa, podendo se
caracterizar como instância dominante em momentos específicos da história,
além de suas relações com a infraestrutura não serem mecânicas: há eficácias
próprias das instâncias e ações de retorno sobre o econômico.
Sobre a polêmica da
centralidade do econômico na história humana até hoje, Marx (1996, p. 206)
defende que:
deve ser claro que a Idade Média não podia viver
do catolicismo nem o mundo antigo da política. A forma e o modo como eles
ganhavam a vida explica, ao contrário, porque lá a política, aqui o
catolicismo, desempenhava o papel principal [elementos dominantes, mas não
determinantes]. De resto basta pouco conhecimento, por exemplo, da história
republicana de Roma, para saber que a história da propriedade fundiária
constitui sua história secreta. Por outro lado, Dom Quixote já pagou pelo
erro de presumir que a cavalaria andante seria igualmente compatível com
todas as formas econômicas da sociedade.
Ou seja, o econômico não é a
“verdade” sobre todas as manifestações sociais, mas, são sua base – inclusive
para os elementos dominantes de uma sociedade. Althusser (1978, p. 141), por
sua vez, resume a visão do materialismo histórico de sociedade da seguinte
maneira:
a determinação em última
instância pela base econômica só pode ser pensada em um todo diferenciado,
logo complexo e articulado, onde a determinação em última instância fixa a
diferença real das outras instâncias, sua autonomia relativa e seu próprio
modo de eficácia sobre a base [infraestrutura].
Como próprio Marx e Engels
mostram em A Ideologia Alemã, onde pela primeira vez esboçam o materialismo
histórico, as instâncias superestruturais não possuem, junto com a ideologia
em geral, história (própria). Se a história até aquele momento via na
“superestrutura idealista” (2009, p. 110) a base da organização social, o
materialismo prático irá romper com tal abordagem. É no terreno prático e
material da sociedade (à época, os autores a denominavam de sociedade
civil/burguesa), quer seja, na infraestrutura que a história se desenvolve,
que os homens se produzem e se reproduzem em última instância. E é lá onde a
análise científica deve iniciar, abrindo possibilidade de compreender as
outras instâncias sociais.
Seguindo essa concepção de
história, situaremos a função do Estado sob as coordenadas do modo de
produção capitalista. Sem entrar nas questões genealógicas do capitalismo,
nem em suas lógicas econômicas mais profundas, compreende-se o modo de
produção capitalista constituído por uma profunda divisão social do trabalho
que possibilita a predominância da produção mercantil, do valor de troca
sobre o valor de uso. Com essa configuração houve a separação radical entre
os agentes produtivos diretos e os meios de produção, agora propriedade dos
capitalistas, agentes da acumulação e expansão do capital. Isso faz com que
esse modo de produção seja marcado pela contradição, tanto interna quanto
relacional entre as forças produtivas e as relações de produção. Quais os
impactos sociais disso? Ou seja, como essas relações aparentemente estritas à
produção afetam a dinâmica mais ampla um formação social capitalista? De
maneira geral, na consolidação de classes fundamentais antagônicas
(burguesia-proletariado) em constantes relações de
dominação/exploração-resistência (luta de classes), em instâncias
relativamente autônomas, que dizem respeito e afetam de maneira mais ou menos
central à estrutura desse modo de produção. Nesse sentido, segundo Althusser
(1999, p. 64) as relações de produção (re)traduzem-se por efeitos que
coincidem e reduplicam efeitos de classe e da luta de classe: não é apenas
uma evolução econômica que dita os rumos históricos, mas também a articulação
desta com a luta de classes.
Ora, longe de reproduzir-se
automaticamente, o capitalismo e o antagonismo de classe, que no capitalismo
possui como fundo a propriedade privada dos meios de produção e pela
exploração do trabalho assalariado (luta de classe econômica), impõem à
classe dominante o constante desafio e a necessidade de reproduzir suas
relações de exploração em larga escala no cenário social, mantendo a posição
das classes intactas e o “sistema funcionando”. Da mesma forma, a classe
dominada também, para sua sobrevivência, resiste constantemente a esse
cenário. Em períodos de crise sistêmica percebemos bem esse caráter nada
espontâneo e pacífico das relações capitalistas: a necessidade de
contrarrestar limitações estruturais desse modo de produção anuncia-se como
momento decisivo e crítico tanto para as classes dominantes e seus aparatos e
dispositivos, quando para as classes revolucionárias que buscam uma superação
do modo de produção.
Então, toda formação social
possui a necessidade de reproduzir suas condições de produção e relações
entre as classes vigentes, num cenário de profundo antagonismo. Essa
reprodução, que é a manutenção contínua de um status
econômico-político-ideológico diz respeito tanto a aspectos materiais, quanto
ideológicos. No modo de produção capitalista, é o Estado (entendido de
maneira ampla, não só a sociedade política e seus sujeitos, e sem cair no
fetichismo jurídico do público-privado) o responsável por garantir tal
reprodução (ALTHUSSER, 1985), representando e correspondendo aos interesses
objetivos das classes dominantes . Para esse fim, utiliza-se tanto de meios e
aparelhos repressivos (aparelhos repressivos de Estado - ARE, como a polícia,
tribunais etc.), usados em última instância e de maneira direta (via
violência); quanto de meios e aparelhos ideológicos (aparelhos ideológicos de
Estado - AIE, como a imprensa, igreja, escola etc.), que realizam uma ação
mais prolongada e sutil de dominação (via consentimento), camuflando a
realidade social e os interesses dominantes objetivos (efeito ideológico propriamente
dito).
Os AIE são diversos e
complexos, e tendem a ser cada vez mais utilizados porque geram pouco
desgaste para a legitimação da dominação de classe e das relações de
exploração capitalistas, diferentemente do uso brutal da violência física direta
, usada normalmente em última instância (os famosos estados de exceção, ou
cenários que se fazem necessários a “manutenção da ordem” e da “segurança
pública”). Mas isso não significa uma atuação desarticulada desses aparelhos:
a repressão também possui seu aspecto ideológico, assim como o ideológico tem
seu caráter também repressivo (ALTHUSSER, 1999, p. 163). Da mesma forma, as
disputas e contradições (luta de classes) entre esses aparelhos e as
ideologias deles no fundo, em última instância, não ultrapassam certo limite,
como demonstraremos.
Deve-se ter em mente de que é
próprio da luta de classes e do Estado capitalista realizar concessões e
compromissos que valorizem as classes dominadas, mas isso não significa,
todavia, uma maior porção do poder político ou um avanço efetivo para uma
ruptura revolucionária. Antes, possui um papel ideológico importante para
demonstrar a neutralidade do Estado (ideologia política e jurídica) e
fortalecer a crença de que é possível mudar as coisas dentro dos limites legais,
da democracia liberal etc.
Poulantzas (1977) esclarece
sobre esse ponto. Segundo o autor, é própria do Estado capitalista a chamada
política social, de acordo com sua autonomia relativa que possibilita um
apoio e participação intensos das massas sem perda de seu caráter de classe.
E esse processo pode até sacrificar, total ou parcialmente, os interesses
econômicos, políticos e ideológicos das classes dominantes em seu controle
num determinado período. Esses fenômenos ocorrem “sem jamais ameaçar o seu poder
político [das classes dominantes do bloco no poder]” (POULANTZAS, 1977, p.
188). E o Estado não se afastando, assim, “um único milímetro dos [seus]
interesses políticos” (POULANTZAS, 1977, p. 282).
O mesmo autor (POULANTZAS,
1977, p. 284-285) nos explica melhor sobre essa relação entre o caráter de
classe que subjaz sob uma autonomia relativa do Estado:
O caráter paradoxal dessa relação reside no fato
de esse Estado assumir uma autonomia relativa face a essas classes
[dominantes] precisamente na medida em que constitui um poder político
unívoco e exclusivo daquelas. […] Essa autonomia em relação às classes
politicamente dominantes […] de forma alguma autoriza uma participação
efetiva das classes dominadas no poder político [vigente], ou uma cessão a essas
classes de 'parcelas' de poder político institucionalizado.
Chegamos aqui em um ponto
central de nossa tese sobre a paradoxalidade da realidade
político-educacional que é marcada pela busca da ampliação do direito a
educação e sua efetivação, pela educação como valor universal. O paradoxo é
próprio do Estado capitalista em si, já que sua necessidade ideológica de
consentimento o faz se passar como Estado de todo/democrático, mesmo muitas
vezes aparentando, ou realmente realizando, posições a favor dos dominados.
Mas esses “pequenos (e aparentes) ganhos” em longo prazo finalizam, caso não
haja, para a quebra dessa condição paradoxal, um objetivo de ruptura política
que tenha um ponto de vista revolucionário, em uma integração à reprodução
sistêmica, “mudar para tudo permanecer o mesmo”, renovando sua própria
legitimidade perante as massas e suas instituições.
Na contemporaneidade essa noção
se faz primordial para o pensamento crítico. Ela demonstra que supostos
progressos (“tático”/democráticos) contra-hegemônicos podem servir à
continuação e fortalecimento da legitimidade do Estado capitalista.
Como já advertia Marx, a história se repete pela segunda vez como farsa: o
que antes poderia ser subversivo ou com potencialidade revolucionária, hoje
pode se tornar fundamental ao próprio status quo.
Busquemos agora para definir o
sistema educacional capitalista para depois debruçar-se sobre sua
paradoxalidade específica.
A literatura marxista, e não só
ela como outras vertentes críticas mais ecléticas, já há algumas décadas se
debruça sobre a função do sistema educacional capitalista dentro da realidade
de exploração-dominação de classe. Compreender o papel da educação na
sociedade burguesa traz luz a muitos aspectos da dominação de classe vigente,
já que, a hegemonia burguesia perpassa decisivamente pelo sistema
educacional, elemento dos mais centrais do nível superestrutural desta
sociedade.
Segundo Poulantzas (1975, p.
36): “a reprodução dos agentes [sociais], principalmente a famosa
'qualificação' dos agentes da própria produção, não se refere a uma simples
'divisão técnica' do trabalho – uma formação técnica – mas constitui uma
efetiva qualificação-sujeição que se estende às relações políticas e
ideológicas”. Ou seja, a educação não é apenas um saber-fazer (preparar para
o mundo do trabalho, como diz a nossa LDB), uma inserção dentro da divisão do
trabalho capitalista para a manutenção da produção em si – eis um aspecto
reprodutor já importante. Também, sob o manto de uma preparação moral neutra
(para a cidadania, também como diz nossa LDB), a educação se configura como
uma prática ideológica e trabalha para submeter e sujeitar indivíduos e
classes à uma hierarquia social, segundo aos imperativos do capital e à
dominação da classe burguesa.
Educação não nada tem de
neutra, ou técnica: é sim social e política. Charlot (1983, p. 12) diz que:
“A neutralidade política da escola só se define, portanto, em função de um
postulado, ele próprio, político”. Segundo Charlot, a operação ideológica da
educação estar em “metamorfosear os conflitos sócio-políticos em desacordos
filosóficos, religiosos, éticos, culturais e técnicos” (CHARLOT, 1983, p.
23).
As formações sociais
capitalistas, onde segundo Althusser o AIE escolar é o dominante, precisam,
assim, da construção de mito, que vários chamam de Mito da Escola Única: “uma
Escola que fornecesse educação igual e de boa qualidade para todas as classes
sociais. [...] um Mito difundido pelo Estado burguês para estabilizar
politicamente a sociedade capitalista” (SAES, 2008, p. 168-169).
Esse mito ideológico possui um
fundo explicitamente jurídico: constrói um cenário discurso que é universal,
geral, formal e de certo aspecto e efeito repressivo, de imposição (exemplo:
obrigatoriedade de permanência dentro do sistema de cada vez mais níveis de
ensino). Nesse nível é possível reverter de neutralidade as relações de
exploração e de classe que a Escola reproduz.
Se o Estado capitalista tem
necessariamente de implementar uma política educacional seletiva, que
corresponda ao modelo capitalista da divisão social do trabalho, ele também
tem necessariamente de construir uma aparência igualitária e niveladora para
o seu aparelho educacional. É da essência do Estado capitalista se apresentar
como representante dos interesses de todos os cidadãos, em todos os níveis de
sua ação. Isso implica, no plano específico da ação educacional, que o Estado
capitalista se exiba como a instituição que garante a igualdade de
oportunidades a todos que queiram se elevar ao topo da vida econômica e social
(SAES, 2008, P. 169-170).
Essa escola, apesar da
aparência de Escola Única (universal) e democrática, “ensina” os saberes e
práticas, de acordo com a classe do indivíduo, indispensáveis para o papel
desigual das classes na divisão social do trabalho e na sociedade. Sua função
é semelhante ao AIE dominante anterior (feudal), a Igreja. Bourdieu e
Passeron parecem concordar com essa tese. Para eles enquanto sistemas
aristocráticos se garantiam pelo sangue ou pela divindade, o capitalismo
precisa um critério justificador das desigualdades que pareça mais técnico e
racional, de acordo com o mérito ou dons individuais. O AIE escolar seria,
para os dois,
instrumento privilegiado da sociodicéia burguesa
que confere aos privilegiados o privilégio supremo de não parecer como
privilegiados, [...] consegue tanto mais facilmente convencer os deserdados
que eles devem seu destino escolar e social à sua ausência de dons ou de
méritos quanto em matéria de cultura à absoluta privação de posse exclui a
consciência da privação de posse (2009, p. 251).
Dessa maneira, através da
formalidade e universalidade no discurso, a Escola consegue impor uma visão
de si mesmo como portadora de uma suposta autonomia absoluta frente às
relações capitalistas de classe. Reproduz a estrutura social de maneira
mediata , através de uma autonomia relativa.
Identificando os paradoxos
Compreendida a localização do
sistema educacional na estrutura capitalista, e as especificidades da ação
estatal e seu espectro ideológico, passemos aos paradoxos do direito à
educação hoje.
Estar-se-ia vivenciando o fim
da reprodução no sistema educacional que, sob a ideologia da Escola Única,
forma classes diferentes em estado de dominação/subordinação? Essa Escola
Única (sistema educacional neutralizado, de autonomia completa) existiria
hoje com a democratização/inclusão da mesma pela força da sociedade civil e
dos “governos progressistas” dentro do capitalismo? A educação se tornou um
valor universal como a prática de “movimentos sociais” já citados afirma?
Sobre as modificações gerais
das últimas décadas do sistema educacional, Dubet (2001, p. 9) afirma que “a
igualdade [na educação] cresceu porque a educação não é mais um bem raro,
beneficiando a todos, mas ela se tornou um bem mais hierarquizado quando as
barreiras foram substituídas pelos níveis”. Haveria então a tendência de
massificação, tipicamente liberal e burguês, em contraposição à raridade
privilegiada de modelo aristocrático e de traços pré-capitalistas. Nada que
ultrapasse, à primeira vista, os limites burgueses. Mas vamos além, e
reafirmar o que já estamos tentando mostrar: o núcleo regressivo que dessa
tendência para um projeto contra-hegemônico em nossos tempos.
No mesmo sentido que Dubet,
também Freitag (1980, p. 124) concorda que a maior amplitude e “igualdade” na
educação (escolar) modificam a configuração do sistema educacional, mas essa
mudança não simboliza uma ruptura com sua função conservadora e dual anterior:
A pressão sobre as escolas é
amenizada. Dá-se a ilusão de igualdade de chances, mas não se dão
objetivamente as condições para um estudo de nível e qualidade equivalentes.
Nasce uma segunda categoria de diplomados, que alimentam um exército de
reserva em potencial.
Bourdieu foi um severo crítico
das ilusões democratizantes do sistema educacional. Para o autor, a presença
cada vez mais significativa no sistema educacional, e até mesmo o sucesso de
classes que antes não o utilizavam, não significa a alternação fundamental
deste: se hoje a homologia social da Escola não é tão idêntica à hierarquia
social como antes, não se pode supor o fim da reprodução. As alterações
sistêmicas causadas pela “democratização”, via ampliação do direito à
educação, e suas respectivas políticas e práticas, que causam também
alterações nas estratégias dos indivíduos e das classes, no fundo, não
alteram o fundamento assimétrico das relações de classe que o sistema
educacional contribui para reproduzir nas sociedades contemporâneas. O autor
comenta, por exemplo, que
as mais altas instituições
escolares e, em particular, aquelas que conduzem às posições de poder
econômico e político, continuam sendo exclusivas como foram no passado. E
fazem com que o sistema de ensino, amplamente aberto a todos e no, entanto,
estritamente reservado a alguns, consiga a façanha de reunir as aparências da
“democratização” com a realidade da reprodução que se realiza em um grau
superior de dissimulação, portanto, com um efeito acentuado de legitimação social
(BOURDIEU, 2010, p. 223).
As consequências mais visíveis
das alterações são: ampliação de níveis antes restritos (exemplo: secundário
e superior); inflação e desvalorização de diplomas e cargos no mercado de
trabalho; forte concorrência nos níveis mais altos, e diversificação e
hierarquização dos mesmos – o que aumenta a constante luta por
(re)classificação, “[...] multiplicação dos ramos de ensino sutilmente
hierarquizados e das vias sem saída sabidamente dissimuladas que contribuem
para perturbar a percepção das hierarquias” (BOURDIEU, 2010, p. 171); e novas
formas eliminação, mais sutis, como o atraso, a relegação, a estigmatização,
a desvalorização do diploma etc.
Dessa forma, como mostra
Freitag, a democratização fora das aspirações, e não das oportunidades
concretas : por isso intitula os jovens que hoje podem ascender ao sistema
educacional de “uma geração engada”, ou de “excluídos do interior”.
Efetivamente, as modificações se caracterizam como translação (não
diferenciando de maneira significativa as distâncias, apenas as transferindo
para um patamar “mais alto”, não se definindo como uma deformação – mudança
estrutural). O mesmo autor completa:
O menor paradoxo do que se
chama de democratização escolar é que tenha sido necessário que as classes
populares que, até então, não davam importância ou aceitavam sem saber bem do
que se tratava a ideologia da “escola libertadora”, passassem pelo ensino
secundário para descobrir, mediante a relegação e a eliminação, a escola
conservadora (BOURDIEU, 2010, p. 162).
Ou seja, as mudanças
“democráticas” foram essenciais para uma renovação da aparência e conseguinte
da legitimidade da função do sistema educacional. A sua “abertura” às classes
populares se fez acompanhada de uma reorganização interna, que geram uma
ilusão dessas classes estarem frequentando aqueles antigos níveis e
instituições privilegiadas, e como consequência um ganho muito maior
ideológico para as classes dominantes, pois seduzem as massas e reforçam a
suposta neutralidade e os pressupostos meritocráticos que fundamenta seus
aparelhos estatais de dominação.
Por outro lado, o setor
educacional tem se tornado “área imensamente lucrativa de acumulação do
capital para a indústria de construção, para os fornecedores de todo o tipo,
e para a multidão de empresas subsidiárias” (BRAVERMAN, 1981, p. 372). Ao
mesmo tempo, além de cumprir essa função objetiva e direta (produtiva) ao
capital, o sistema educacional é responsável central de fornecer a capacidade
de ler, escrever e calcular, além de socialização, exigências cada vez mais
básicas no ambiente urbano (cada vez mais predominante), menos para a “maior
qualificação” para o trabalho, do que para manter “uma população controlável
que pode ser vendida, seduzida e controlada” (BRAVERMAN, 1981, p. 369).
Esse impulso à ampliação e
democratização aparente do sistema educacional se une perfeitamente a um
efeito perverso, pois democratiza a forma, porém modificando a sua
substância: um completo engodo para as massas. Sobre o descompasso entre
qualificação/escolaridade e oportunidades objetivas de carreiras que exijam
realmente essa formação, geradas pela necessidade de realização do capital, o
autor continua: “o conteúdo da educação deteriorou-se à medida que sua
duração se estendia […]. Servindo para preencher um vácuo, as próprias
escolas tornaram-se um vácuo, cada vez mais vazio de conteúdo e reduzidas a
pouco mais que sua própria forma” (BRAVERMAN, 1981, p. 371-372). As classes
populares quando enfim acessam de maneira mais massificada o sistema educacional,
pensando ter alcançado oportunidades iguais aos privilegiados de antes,
encontram um diploma desvalorizado – e nesse sentido, pode-se falar de uma
geração engada, ou excluídos do interior.
Logo não se pode identificar as
modificações mais gerais no sistema educacional (ampliação do sistema e do
tempo de escolaridade da população em geral, mais fácil
acesso/permanência/conclusão etc.) diretamente como democratização, no
sentido forte do termo. Longe de representar uma vitória das classes
populares contra a reprodução da hierarquia social, fruto de uma suposta
alteração significativa na correlação de forças entre as classes, o direito à
educação hoje colabora ainda, de maneira específica, para a manutenção do
sistema capitalista. A Escola encontra-se muito mais próximo de um depósito
de um exército de reserva, uma fábrica das ilusões, do que a instituição
libertadora de uma sociedade desigual. A ampliação do tempo de escolaridade,
que não significa necessariamente aprendizagem ou qualidade de ensino e muito
menos demolição das hierarquias sociais e da divisão social do trabalho
“fora” da educação, tem sua funcionalidade bem estabelecida de maneira não
antagônica ao status quo.
As modificações no sistema
educacional acompanham modificações mais amplas na sociedade capitalista,
cumprindo funções econômicas de conservação (reprodução) essenciais. As
pretensões aparentemente progressistas dessas modificações servem, ao final,
para aprofundar a efetividade da (nova) reprodução, por gerar o
desconhecimento desta em novos formatos e aparências. Nesse sentido completa
Bourdieu (2010, p. 179):
por um paradoxo aparente, a manutenção da ordem –
isto é, do conjunto [no sistema educacional] das distâncias, das diferenças,
das posições, das precedências, das prioridades, das exclusividades, das
distinções, das propriedades ordinais e por, conseguinte, das relações de
ordem que conferem a estrutura a uma formação social – é assegurada por uma
mudança incessante de suas propriedades substanciais.
A existência dualismo estrutural,
necessário à perpetuação da hierarquia social e da divisão social do trabalho
das sociedades contemporâneas, não se findou, mas apenas se tornou mais
complexo e difuso, arraigando-se nas ideologias jurídicas “pós-ideológicas” e
do Estado democrático que neutralizam os conflitos sócio-políticos
antagônicos e exercem efeito dissimulador fundamental à exploração/dominação
capitalista.
Que fazer?
Vimos o atual simulacro
ideológico que a questão do direito à educação na sociedade capitalista vem
produzindo. E como isso se encaixa na renovação das funções do Estado
capitalista e da reprodução das relações de produção burguesa. O sistema
educacional possui uma resistência estrutural, por sua própria natureza, e
reformas, mesmo com “intenções boas”, podem retornar ao fundo
reprodutivista/conservador na forma de paradoxo. Essa visão dialética abala a
visão mecânica e limitada oferecida pela ideologia jurídica e pelas linhas
políticas que são suas reféns.
Uma mudança estrutural num
setor da sociedade não pode se concretizar de maneira isolada, apesar cada
setor agir numa temporalidade, dentro de uma articulação complexa, de acordo
com sua autonomia relativa. Logo, a luta que busque alterar uma realidade
educacional vigente também deve primar por se vincular a um projeto de
sociedade. E essas finalidades e projetos político-educacionais só são
possíveis se vinculadas a um movimento concreto e atual da história.
Nesse sentido comenta Saes: “A transformação interna que faria da
Escola [no caso, para o autor, pública] uma verdadeira escola a serviço da
maioria social exigiria a ruptura com o compromisso orgânico do aparelho
educacional de Estado com a reprodução da divisão capitalista do trabalho”
(SAES, 2008, p. 174). E acrescentar-se-ia, a ruptura com as relações de poder
que dela emanam.
Também é necessário levar em
consideração que essa luta interna no sistema educacional reflete de maneira
preponderante uma correlação anterior de forças entre as classes, renovada
(em última instância, subordinada) no espaço do sistema educacional. Isso
significa que a possibilidade de lutas e vitórias internas pressupõe que as
classes se configurem como força social ativa, isso valendo tanto para as
dominantes (no sentido de conversação de seu status) quanto para as
dominadas. Somente classes organizadas politicamente e sob uma proposta de
hegemonia conseguem de fato entrar nas zonas de disputa e luta de classes e
modificar suas correlações de forças, incluindo aí o terreno ideológico e
seus aparelhos.
Mesmo assim, como vimos,
ressalta-se que o Estado e seus aparelhos (incluindo o sistema educacional)
possuem um papel sintetizador da hegemonia vigente, de coesão e manutenção
mais fundamentais da ordem social, inviável de disputa completa ou
modificação estrutural a partir de uma só instituição ou aparelho de estado.
Sem uma ruptura política que ultrapasse esses limites, corre-se o risco já
citado de “mudar para conservar”.
O programa político das classes
dominadas para o sistema educacional deve ser sua própria modificação de
padrão (que hoje opera como escola capitalista), possível pelas modificações
estruturais, para além de mudanças de nível superestrutural.
Reforça-se na seguinte visão,
com o objetivo de sistematizar esse debate: as possibilidades e
impossibilidades de abertura na autonomia relativa para disputa de hegemonia
interna do sistema educacional diz respeito a questões mais globais da
organização das classes dominantes e dominadas, e se estas últimas se
configuram como força social ativa capaz de reverter a correlação de força
vigentes e conseguir vitórias setoriais (aqui, tratando do sistema
educacional e da educação) que enfim se desencadeiem numa ruptura
revolucionária, visando novas formações sociais estruturalmente diferentes do
modo de produção capitalista.
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Sítios eletrônicos consultados:
http://www.educacionista.org.br/
http://www.educacionismomebiano.blogspot.com.br/
http://fne.mec.gov.br/
http://www.todospelaeducacao.org.br/
http://www.campanhaeducacao.org.br/
http://www.une.org.br/2011/09/carta-aberta-ao-movimento-todos-pela-educacao/
http://www.marxists.org/portugues/marx/
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segunda-feira, 1 de julho de 2013
Paradoxos do direito à educação na sociedade capitalista atual: esboços de uma crítica
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